Unipampa encabeça projeto para criação do Museu Casa Petronilha
5 de maio de 2026
A Universidade Federal do Pampa (Unipampa) começou a desenvolver em 2025 um projeto que tem o objetivo de organizar, documentar e preservar o acervo pessoal e profissional da professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva visando à criação, em Porto Alegre (RS), do Museu Casa Petronilha.
Viabilizado por verbas do Ministério da Educação (MEC), por meio da Secretaria de Educação Continuada, Educação de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), o projeto conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu). “A participação da Fapeu é fundamental tendo em vista a expertise da Fundação na execução financeira, técnica e administrativa do recurso público da Secadi-MEC”, observa a professora Marta Íris Camargo Messias da Silveira, coordenadora do projeto e doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBa).
Honoris Causa
Nascida em 29 de junho de 1942 na antiga Colônia Africana, atual Bairro Rio Branco, em Porto Alegre, a professora Petronilha Gonçalves e Silva é referência na educação e no estudo das relações étnico-raciais no Brasil. Entre outros reconhecimentos, em 2024 foi condecorada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com o título de Doutora Honoris Causa da UFRGS.
A professora também foi homenageada pelo MEC com a criação do Selo Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, uma iniciativa que reconhece Secretarias de Educação comprometidas com a implementação da lei que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio, tanto públicos quanto privados. Em 2025, ano da primeira edição, o Selo Petronilha foi concedido a 436 Secretarias de Educação — sendo 428 municipais e oito estaduais.
Pioneira
O projeto de criação da Museu Casa Petronilha envolve, além da Unipampa, também a UFRGS, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco). O trabalho é desenvolvido no Rio Grande do Sul e em São Paulo, onde estão localizados os imóveis que abrigam os acervos pessoal e profissional da professora Petronilha - mais exatamente nas cidades de Porto Alegre, em uma residência que abrigará o museu; em São Paulo e em São Carlos, onde Petronilha é professora emérita.
Primeira mulher negra a integrar, em 2002, o Conselho Nacional de Educação (CNE), a professora Petronilha integrou o magistério público e privado do Estado do Rio Grande do Sul, é doutora em Educação pela UFRGS, foi docente da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS) e é docente sênior junto ao Departamento de Teorias e Práticas Pedagógicas do Centro de Educação e Ciências Humanas da UFSCar. Também ocupou cargos técnicos na Secretaria de Educação e no Conselho Estadual de Educação do Estado do Rio Grande do Sul e representou instituições e movimentos relativos à educação e à população negra, tanto nacionais quanto internacionais.
Embrião
A ideia embrionária do projeto do Museu Casa partiu da própria professora Petronilha, que, em agosto de 2020, formalizou à Unipampa um pedido para a viabilização de parcerias que viabilizassem a organização do seu acervo pessoal e profissional. “O pedido foi direcionado à Unipampa em razão da expertise de professoras negras do ensino superior da instituição em gestão e consolidação de museus no Rio Grande do Sul”, lembra a coordenadora do projeto, que de 2020 a 2023 foi coordenadora da Assessoria de Diversidade, Ações Afirmativas e Inclusão (Adafi) da Unipampa e por dois períodos ocupou a presidência do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial do município de Uruguaiana (RS). Em 2024, com a retomada da Secadi e da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ) do governo federal, foi possível viabilizar os recursos necessários para o desenvolvimento do trabalho.
“O Projeto Museu Casa Petronilha está diretamente alinhado aos eixos 3, 6 e 7 do PNEERQ, cujo objetivo é promover a formação de profissionais da educação das escolas e fomentar programas e ações que visem à disseminação de saberes da população negra e quilombola”, ressalta a professora Marta Silveira. O eixo 3 da política é sobre a formação de gestores e professores; o 6 trata da afirmação das trajetórias negras e quilombolas; e o 7, a difusão de saberes. “Ao destinar recursos públicos sob a gestão da Unipampa, a Secadi reafirma seu compromisso político com a valorização do reconhecimento do protagonismo das mulheres negras na educação afro-brasileira e africana, reconhecendo seus saberes e territórios, e sendo linha de frente no combate às desigualdades sociais marcadas pelo racismo”, observa a professora Marta.
Além da coordenadora, também estão na linha de frente do trabalho as professoras Giane Vargas, doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); Dandara Fidelis Escoto, doutora em Educação em Ciências pela Unipampa; Deyze dos Anjos, especialista em Promoção da Igualdade Racial na Escola; e Ana Cristina Juvenal da Cruz, mestra e doutora em Educação pela UFSCar.
Lançamento
O lançamento oficial do projeto ocorreu entre os dias 21 e 24 e julho de 2025, em Porto Alegre, com uma série de atividades institucionais. A programação incluiu visitas técnicas e institucionais ao Memorial da Associação Satélite Prontidão; ao IFRS, à UFRGS, onde Petronilha estudou; Quilombo do Areal da Baronesa; e ao Ministério Público do Rio Grande do Sul.
Na UFRGS, onde Petronilha estudou da graduação ao doutorado, foram duas agendas, em dias distintos. Na primeira estavam presentes o vice-reitor Pedro Costa. a vice-reitora da Unipampa, Francéli Brizolla, e representantes do IF-RS e do Ministério da Educação. Na ocasião, no Central Cultural da UFRGS, a professora Petronilha lembrou de sua trajetória como acadêmica da universidade e falou da importância do projeto.
“A criação da Museu Casa simboliza um processo educativo que só é possível por meio do encontro de pessoas e da troca de experiências”, destacou o pró-reitor da UFRGS no encontro. “Agradeço à professora Marta Messias da Silveira, pioneira das ações afirmativas na Unipampa, que vem fazendo uma caminhada histórica de transformação da nossa instituição. Também quero dizer da emoção de ter a presença da professora Petronilha, pessoa cuja atuação marcou a trajetória de vida de muitas mulheres”, ressaltou a vice-reitora da Unipampa.
Na outra agenda na universidade federal, a equipe técnica reuniu-se com coordenadoras do curso de graduação e pós-graduação da Museologia e do curso de Arquivologia da UFRGS para tratar de parcerias institucionais.
A equipe do projeto também reservou um espaço para ouvir a homenageada na residência e futura sede do Museu Casa Petronilha, no Bairro Rio Branco. “Foi um momento de escuta da professora, a partir da história oral e trabalho de campo, acesso a memória individual e coletiva da antiga Colônia Africana e o atual Bairro Rio Branco. Foi também um momento de construção coletiva, no qual cada profissional pode realizar um diagnóstico prévio de propostas a serem realizadas em seus setores”, disse a coordenadora do projeto. Os trabalhos para a criação do Museu Casa vão se estender até o primeiro semestre de 2026.
PROJETO: PROFª DRª PETRONILHA BEATRIZ GONÇALVES E SILVA: ORGANIZAÇÃO, DOCUMENTAÇÃO E PRESERVAÇÃO DO ACERVO PESSOAL E PROFISSIONAL / COORDENADORA: Marta Íris Camargo Messias da Silveira / martasilveira@unipampa.edu.br/ UNIPAMPA / Campus de Uruguaiana /
Esta reportagem integra a Revista da Fapeu 16, disponível na íntegra em https://fapeu.org.br/revistafapeu