UFSC pesquisa uso de microalgas para elaboração de biocombustíveis
26 de maio de 2026
Uma pesquisa realizada na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) está avaliando a utilização de biomassa de microalgas como matéria-prima para a elaboração de biocombustíveis, de bioestimulantes agrícolas e também de aditivos para a alimentação de animais aquáticos cultivados, como peixes e camarões.
Com financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o desenvolvimento da pesquisa conta com a participação da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu). “A Fapeu, por conta do auxílio no processo de tramitação dos documentos e da gestão dos recursos financeiros, permite que os pesquisadores possam concentrar sua atenção nas atividades do projeto”, ressalta o professor Roberto Bianchini Derner, coordenador da iniciativa.
Em continuidade a uma linha de pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Cultivo de Algas (LCA) desde 2004, o atual projeto começou no final de 2024 e será realizado até julho de 2026. “O objetivo é realizar pesquisas científicas e tecnológicas visando ao desenvolvimento de sistemas de cultivo superintensivo de microalgas para a obtenção de biomassa que possa ser utilizada como matéria-prima na elaboração de biocombustíveis, de bioestimulantes agrícolas e de aditivos para a alimentação de espécies aquáticas cultivadas”, define o professor Roberto Derner.
Microalgas são organismos unicelulares e microscópicos que vivem, principalmente, em meios aquáticos e possuem uma característica curiosa: não são plantas, mas são capazes de realizar a fotossíntese e de se desenvolver utilizando luz do sol e gás carbônico, produzindo a maior parte do oxigênio do planeta. Reproduzem-se muito rapidamente, proporcionando grande quantidade de biomassa, rica em óleos e outros compostos. A produtividade pode ser de 10 a 100 vezes maior do que de cultivos agrícolas tradicionais.
Fontes renováveis
A principal linha da pesquisa desenvolvida pela UFSC é sobre a possibilidade de adoção da biomassa de microalgas na elaboração de biocombustíveis. Nesse estudo, a biomassa, que é a matéria-prima do processo, é produzida no Laboratório de Cultivo de Algas (LCA) da UFSC e encaminhada para laboratórios parceiros de outras universidades (como as federais de Goiás, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Norte), onde prosseguem as pesquisas para produção de biodiesel, bioquerosene, bioetanol, entre outros biocombustíveis. “Hoje é imperativo o uso de fontes renováveis e a busca por novas matérias-primas para a produção de energia limpa, buscando a redução dos impactos ambientais causados pela queima dos combustíveis fósseis, por exemplo. Além disso, há uma crescente demanda por energia e uma previsão de escassez da matéria-prima usualmente utilizada, como petróleo, carvão e gás natural”, observa o coordenador do trabalho na UFSC.
O Laboratório de Cultivo de Algas está localizado na Estação de Maricultura Professor Elpídio Beltrame, situada na Barra da Lagoa, em Florianópolis. No local, os sistemas de cultivo são avaliados quanto à viabilidade técnica e determinadas as condições ideais de cultivo para diferentes espécies de microalgas, visando à maximização da produção de uma biomassa rica em biocompostos e viável para diversas aplicações biotecnológicas.
Menos defensivos
Outra linha de estudos do projeto é sobre o uso de microalgas na agricultura, como bioestimulantes agrícolas. “Nesse estudo são desenvolvidos no LCA os cultivos das microalgas visando tanto ao aumento da produtividade em biomassa quanto à definição dos fatores ambientais que podem maximizar a biossíntese dos compostos com propriedades bioestimulantes para plantas de valor comercial (feijão, milho, soja, cevada etc.)”, explica o professor Derner.
Os experimentos da aplicação nas plantas dos extratos obtidos a partir da biomassa das microalgas são feitos em laboratórios da UFSC e de outras universidades, como a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Há uma crescente exigência pela produção de alimentos com menor necessidade de defensivos agrícolas e isso, aliado ao aumento nos custos da produção, aos problemas de contaminação ambiental (incluindo a humana) e aos estresses associados às mudanças climáticas, vêm impulsionando o desenvolvimento de novas tecnologias que envolvem a bioestimulação e/ou a biofertilização das plantas cultivadas”, ressalta o coordenador do trabalho.
Resultados
A terceira linha de pesquisa do projeto tem foco no uso de microalgas como aditivo para a alimentação de espécies da aquicultura, uma atividade em expansão mundial e particularmente no Brasil, onde a produção aquícola deverá alcançar 1 milhão de toneladas em 2025. “A questão é que, para o cultivo comercial de camarões e de diversos peixes, é obrigatória a fabricação de rações específicas, sendo necessária a importação de insumos como óleo de peixe e farinha de peixe. Ocorre que a matéria-prima desses insumos é, geralmente, obtida por pesca e isso pode causar grande impacto ambiental nos locais de captura, bem como a oferta estar sujeita a questões sazonais e de mercado, como variações cambiais, por exemplo”, explica o professor.
Os primeiros resultados do projeto são promissores, com os dois sistemas de cultivo superintensivo de microalgas estudados no LCA apresentando números significativos de produtividade alcançada. Também foram identificadas espécies de microalgas cujos extratos aplicados em plantas apresentaram comprovados efeitos bioestimulantes – com experimentos desenvolvidos em pequena escala (laboratório ou casa de vegetação) e também em grandes áreas, sob condições reais de cultivo. “Assim, os resultados do projeto podem ser considerados inovadores e com potencial impacto ambiental, socioeconômico, tecnológico e científico, uma vez que visam à geração de conhecimento sobre a integração de processos na solução de problemas ambientais nacionais”, ressalta o professor Roberto Derner.
PROJETO: PRODUÇÃO DE BIOMASSA DE MICROALGAS PARA A ELABORAÇÃO DE BIOCOMBUSTÍVEIS E OBTENÇÃO DE BIOPRODUTOS / COORDENADOR: Roberto Bianchini Derner / roberto.derner@ufsc.br / UFSC / Departamento de Aquicultura / CCA / 5 participantes / @lcaufsc
* Esta reportagem integra a Revista da Fapeu 16, disponível na íntegra em https://fapeu.com.br/revistafapeu