Estudo revela presença de protetores solares nas águas da Ilha de SC

22 de maio de 2026

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Um projeto em desenvolvimento na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) avalia o impacto ambiental e busca o aperfeiçoamento da qualidade, da segurança e da eficácia das moléculas dos protetores solares. Desenvolvida em parceria com a empresa Farma Service Bioextract, de São Paulo, a iniciativa conta com a participação da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu). “A Fapeu viabilizou a operacionalização do projeto, por meio do recurso financeiro. Este recurso é utilizado em sua maioria para compra de insumos e manutenção dos equipamentos”, explica o professor Gustavo Amadeu Micke, coordenador do trabalho.

As coletas para o estudo sobre o impacto ambiental são feitas em oito pontos distribuídos ao redor da Ilha de Santa Catarina. Ao longo de todo o ano são analisadas amostras de água do mar e de tecidos de peixes e ostras. Os resultados demostraram a presença e distribuição das moléculas fotoprotetoras, bem como uma relação entre os níveis encontrados e a época do ano em que a coleta foi feita, com maiores níveis no verão e decréscimo no inverno.

 

Danos

 

Os trabalhos do projeto começaram em 2022 e devem se estender pelo menos até 2026. “O objetivo é que, a partir das ferramentas desenvolvidas neste trabalho e dos resultados demonstrados, desperte-se o interesse de outros grupos de pesquisa no desenvolvimento de novas moléculas fotoprotetoras, que podem ser sintéticas ou naturais” observa o professor Gustavo Amadeu Micke. “Além disso, o ideal seriam filtros mais estáveis e de amplo espectro, que protejam tanto contra UVB (que causa queimaduras) quanto contra UVA (relacionado ao envelhecimento e câncer de pele). Tecnologias de encapsulamento e incorporação de antioxidantes para reduzir danos oxidativos e aumentar a estabilidade também são alternativas viáveis”, acrescenta o coordenador do projeto.

Moléculas como a oxibenzona (benzofenona-3), o octinoxato, o homosalato e a avobenzona são consideradas persistentes, de difícil degradação e que se acumulam no ambiente aquático, causando impacto nos ecossistemas marinhos. Somente a oxibenzona - também conhecida como BP-3 ou benzofenona-3 - está presente em mais de 3,5 mil produtos de proteção solar em todo o mundo, segundo estudo publicado no periódico Archives of Environmental Contamination and Toxicology. O produto químico chega à água pela pele dos banhistas e através de águas residuais de sistemas sépticos costeiros. “Além disso, de forma geral, já foram detectados resíduos em tecidos de peixes, mexilhões e até em mamíferos marinhos, indicando potencial para entrar na cadeia alimentar”, observa o professor. Estudos também mostram que alguns filtros com oxibenzona provocam branqueamento de corais mesmo em baixas concentrações, na ordem de microgramas por litro.

“Para reduzir esse impacto ambiental na água é necessário pensar em estratégias de formulações mais sustentáveis, contendo filtros minerais (físicos) como dióxido de titânio (TiO) e óxido de zinco (ZnO). Além disso, é importante evitar filtros reconhecidamente nocivos, como a oxibenzona, octinoxato, octocrileno e homosalato, que apresentam maior impacto ambiental, e o uso de fragrâncias sintéticas. E buscar bases biodegradáveis como cremes, géis, sprays, que se degradem naturalmente sem liberar microplásticos ou derivados de petróleo”, destaca o professor Micke. “Juntamente com tudo isso, pensarmos em novas alternativas de moléculas para serem usadas como protetor solar”, acrescenta.

 

Qualidade e segurança

 

O estudo faz parte da tese de doutorado da estudante Camila Pesenato Magrin, do Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQMC) da UFSC. “O avanço das metodologias analíticas é importante para assegurar o correto monitoramento, quantificação e determinação de moléculas utilizadas como protetor solar em produtos cosméticos”, destaca Camila. “Além dos aspectos relacionados à qualidade, os métodos desenvolvidos podem ser aplicados para estimar a segurança e avaliar a eficácia dos produtos. Outro ponto bastante importante trata-se do impacto ambiental possivelmente ocasionado por estas moléculas e que pode ser mensurado em amostras de água do mar”, acrescenta a doutoranda.

Na questão da qualidade, o projeto realiza a análise de 11 diferentes moléculas fotoprotetoras disponíveis comercialmente. No que diz respeito à segurança, o objetivo é avaliar a permeabilidade das moléculas fotoprotetoras na pele humana por meio de membrana artificial paralela. Quanto à eficácia, a ideia é validar metodologias in vitro para a determinação do fator de proteção UVB e UVA de filtros solares químicos. E sobre o impacto ambiental, o intuito é acompanhar a presença das moléculas de protetor solar na água do mar ao longo de diferentes épocas do ano. “Em conjunto, estas etapas visam avaliar os limites e potencialidade das moléculas utilizadas atualmente nos produtos. E, ainda, servir como ferramenta facilitadora de pesquisas e avaliação sobre potenciais moléculas alternativas, especialmente as de origem natural”, ressalta a estudante.

Desenvolvido integralmente no Laboratório de Eletroforese Capilar e Cromatografia (LabECC), no Departamento de Química da UFSC, o trabalho conta com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Catálise (INCT Catálise). Também colaboram com o projeto os laboratórios Biomarcadores de Contaminação Aquática e Imunoquímica (LabCAI), de Poluição e Geoquímica Marinha (LapogeoMar) e o de Ecologia de Águas Continentais (Limnos), todos da UFSC.

 

PROJETO: MÉTODOS ESPECTROMÉTRICOS E DE SEPARAÇÃO APLICADOS A PROTETORES SOLARES: QUALIDADE, SEGURANÇA, EFICÁCIA E IMPACTO AMBIENTAL / COORDENADOR: Gustavo Amadeu Micke / gustavo.micke@ufsc.brUFSC / Departamento de Química / CFM / 5 participantes

Esa reportagem faz parte da Revist da Fapeu 16, disponível na íntegra em https://fapeu.com.br/revistafapeu